Em O Jogo da Amarelinha (Rayuela), romance do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), o leitor pula do jeito que quiser. Como um labirinto que avança e retrocede brincando com quem lê, a obra pode ser lida tanto de forma fluida, clássica, em capítulos (do 1 ao 56), compreendendo de modo claro a história de um triângulo amoroso, como também, a partir do capítulo 73, seguindo a ordem indicada pelo autor, como um mapa de leitura, com mil encadeamentos possíveis, incluindo capítulos antes ironicamente denominados "dispensáveis".
Nesse segundo modo de pular a amarelinha, o curso principal da narrativa oferece ramificações insondáveis, que partem de um comentário sobre o personagem para desaguar em uma reminiscência surreal - citações, cartas, breves episódios, textos que debatem a literatura atual, artigos sobre os personagens, desvarios, tudo vale para reforçar o caráter ambíguo e irônico da história.
Intelectual no desterro em Paris, longe de sua Argentina querida, o protagonista Horacio busca um ponto firme para seu mundo em pedaços. Tentará com os companheiros de exílio, os membros do Clube da Serpente, onde discutirá arte, filosofia e política, ao som do jazz, nos cineclubes e na ladainha existencialista.
Cortázar o faz por meio de uma geografia de alegorias. Assim esquadrinha a Paris de "Rayuela", surrealista e cheia de possibilidades - uma ponte, uma porta, eis aberto um mundo de sonhos. As pontes surgem, logo, de chofre, na apresentação direta do narrador, em primeira pessoa, no episódio que abre o romance com a busca desenfreada de Horacio por Maga.
Maga é Lucía, que Horacio encontra para novamente perder, num jogo de esconde-esconde que não termina ao final do livro. Obra aberta, O Jogo da Amarelinha não se encerra com o melancólico e necessário fracasso do protagonista, mas se abre para novos lances de dados que reordenem a arte e a sua contraparte combalida, a vida.
Na sua obra mais conhecida, Cortázar explorou os limites do conceito de realidade, construindo um gênero todo pessoal, expresso na "Teoria do Túnel" - texto em que defendia a coadunação de uma poética decorrente do surrealismo com a filosofia existencialista. Tal projeto, já posto em prática com Divertimento (1949), se realizaria por completo em O Jogo da Amarelinha, de 1963.
Estão no romance o questionamento existencial, a naturalização do imponderável e do lúdico como verdade, que se entregam no título e se explicam ao longo da narrativa, composta de fragmentos intercambiáveis.
Talvez tenha sido o próprio Cortázar quem definiu melhor o inconformismo que o levaria, na arte, a forçar as barreiras formais. "Desde pequeno, minha relação com as palavras, com a escritura, não se diferencia de minha relação com o mundo em geral. Eu pareço ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas."
(disponível em http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/jogo-amarelinha-643717.shtml, acesso em 30/1/14)
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
domingo, 8 de dezembro de 2013
VOZES ANOITECIDAS
Publicado pela primeira vez em 1986, Vozes anoitecidas projetou
o escritor moçambicano Mia Couto para o mundo. Conhecido até então por
seu trabalho como jornalista e poeta, o autor - hoje tido como um dos
mais influentes escritores da língua portuguesa - lançou aqui as bases
daquela que viria a ser uma das principais características de sua obra
ficcional: a reconstrução de laços entre registro oral e escrito.Em doze pequenos contos, um rol de personagens esfarrapados e alheios ao palco principal dos acontecimentos narra, de seu ponto de vista marginal, histórias que flertam com o mágico e com o absurdo sem, no entanto, desviarem-se completamente do plano factual.
Em “As baleias de Quissico”, Jossias aguarda a chegada de um animal marinho de cuja boca, acredita, brotará “amendoim, carne, azeite de oliva e bacalhau”. Mas como saber se o animal existe, se ele jamais viu uma baleia? O enorme monstro que aporta sem ser visto pode ser tanto o misterioso “peixe grande” como um submarino carregado de armamentos ilegais. Jossias prefere acreditar no sonho e, como ele, outros personagens de Vozes anoitecidas encontram mais razão na fantasia que na lógica da guerra e da privação.
Ao promover uma espécie de vertigem, sob efeito da qual não se pode afirmar se uma narrativa é absurda ou se absurda é a realidade de que ela trata, o autor apresenta a perplexidade como ponto de partida para o fazer literário.
(disponível em: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13419, acesso em 8/12/13)
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
sábado, 30 de novembro de 2013
Próximo encontro do Legere: 5/12
Para finalizar os encontros de 2013, discutiremos o romance Lolita. Como sempre, das 19h30 às 21h30, na Casa das Rosas. Até lá!
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