segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A literatura como remédio

http://vidasimples.uol.com.br/noticias/experiencia/a-literatura-como-remedio.phtml

De volta às atividades

Depois de uns anos de interrupção, o Legere Clube de Leitura retoma suas atividades no próximo dia 19/10, com a discussão do livro Diário da queda, de Michel Laub.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

A ESPERA... por Maria da Betania Galas

Em À Espera dos Bárbaros (título que remonta ao poema de mesmo nome do poeta grego Konstantino Kaváfis), o administrador de um vilarejo não nomeado, localizado nas fronteiras de um Império, também não nomeado, está prestes a completar seu tempo de serviço e, além de realizar todas as tarefas que cabem a um magistrado rural, espera apenas “merecer três linhas na Gazeta Imperial ao morrer”. “Nunca pedi mais que uma vida tranquila em tempos tranquilos”. Até que uma expedição militar liderada pelo Coronel Joll, oficial da Terceira Divisão da Guarda Civil, vem da capital do Império para investigar as possíveis invasões armadas dos nativos bárbaros, na região da fronteira. O magistrado, no entanto, não confia muito nos boatos. Suas observações mostram que: “(...) uma vez em cada geração, infalivelmente, há um surto de histeria em relação aos bárbaros. Não há uma única mulher ao longo da fronteira, que não tenha sonhado com a mão escura de um bárbaro (...), um único homem que não tenha estremecido com a imagem de um bárbaro entregando-se à orgia em sua casa (...), raptando-lhe as filhas”. A partir daí a consciência atormentada e ambígua do magistrado irá conduzir a narrativa. Os gestos e imagens construídos costuram um discurso que traz a polarização bárbaro/civilizado como uma ferida aberta, alimentada permanentemente pelo processo de mitificação do outro. Vivendo espacialmente na fronteira, o magistrado encarnará posicionamentos e agregará em seu próprio corpo - transformado ao longo de toda narrativa - as contradições das fronteiras entre tempos: o tempo do Império que os oficiais “devotos da verdade e doutores em interrogatório” defenderão até as ultimas consequências, o tempo do homem comum, que compreende as designações do Império como naturais e o tempo dos bárbaros, uma ameaça constante à civilização. As identidades dos corpos, apresentados de forma relacional, crua e não idealizada, relativizam a verdade e, na agudeza do discurso do magistrado, expõem os absurdos da razão civilizatória: “Há uma época do ano, sabe, em que os nômades nos visitam para comerciar. Pois bem: visite o mercado então, e verifique quem costuma ser roubado no peso das mercadorias, quem costuma ser enganado e maltratado, quem sofre ameaças. Verifique quem é obrigado a deixar suas mulheres no campo, por temor a ser insultadas por soldados. Veja quem são os bêbados jogados nas sarjetas, e veja quem os trata a pontapés. Contra esse desprezo pelos bárbaros, esse desprezo de que é capaz o mais humilde estalajadeiro, o mais pobre camponês, é que me venho debatendo, como juiz, há vinte anos. Como erradicar os conflitos, particularmente se se trata de conflitos fundados em nada mais substancial que a diferença de comportamentos à mesa ou a forma particular de suas pálpebras?” O magistrado iniciará sua procura por respostas a suas angústias, no enfrentamento e acolhimento da diferença, quando desenvolve uma relação ao mesmo tempo erótica e sagrada com uma moça bárbara, cega e aleijada pelos torturadores. A narrativa dos rituais vividos pelos dois antes de dormir são carregadas de sutilezas – “procuro segredos e respostas, por mais bizarros, como uma velha que lê nas folhas de chá”. No corpo da mulher bárbara ele parece buscar a si mesmo, abrindo-se para o outro: “Faço com que se sente, encho a bacia, arregaço-lhe as calças até o joelho. Agora que os pés estão juntos na água, percebo que o esquerdo é mais voltado para dentro que o direito; que, quando se levanta, precisa se apoiar nas bordas externas dos pés (...). Começo a lavá-la. Ela, por sua vez, ergue os pés para mim. Ajoelhado, massageio-lhe os dedos frouxos na espuma suave e leitosa do sabonete. Em breve, meus olhos se fecham, minha cabeça tomba. É quase um êxtase.” A expedição, organizada por ele, para devolver a moça ao seu povo é responsável pela consolidação de sua oposição ao Império. Distante das fronteiras do Império, ele finalmente consegue se relacionar sexualmente com a moça bárbara. Mas é um homem que está na fronteira, a moça o vê como uma das faces do Império e não quer voltar com ele. “Porque eu não era, como gostava de pensar, o oposto, indulgente e dado a prazeres, do frio e rígido coronel. Eu era a mentira que o império conta a si mesmo em tempos tranquilos, ele a verdade que o império conta quando sopram ventos duros”. No retorno, será recebido como um traidor, um inimigo. A partir daí o magistrado viverá a verdade do corpo. Sentirá na carne como o Império trata o outro, o inimigo, utilizando-se dos métodos mais sórdidos e cruéis para degradar, humilhar e por fim anulá-lo. Nas palavras do torturador: “A dor é a verdade. Tudo mais está sujeito a dúvida”. Será preso e torturado, viverá como um moribundo patético. Mesmo assim, o recalcitrante magistrado opera com sua indignação e perplexidade e, de sua figura esfarrapada e fétida, o torturador ouve o seguinte questionamento: “Espere! Ouça-me só mais um momento, estou sendo sincero, custa-me muito expressá-lo, pois você me apavora, nem é preciso dizer, tenho certeza de que sabe disso. Acha fácil comer depois? Imaginava que a gente precisasse lavar as mãos. Mas não bastaria uma lavagem comum, seriam necessários a intervenção de um sacerdote, um ritual de purificação, não acha?(...) Do contrário, como seria possível retornar à vida cotidiana, sentar-se, por exemplo à mesa e repartir o pão com a família e os companheiros?” Essa entonação tem tanto de revolta como de ironia. E é essa ironia que nos leva a enxergar, na obra literária de Coetzee, mais que palavras, um entre palavras, um mundo sensível, colhido por dentro da crueza dos sentimentos. Em seus livros, são personagens solitários, emocionalmente e fisicamente vulneráveis (o professor universitário de Desonra, o fotógrafo aposentado de O Homem Lento, o magistrado etc.) que nos colocam de frente para a vida dos homens. Com suas coleiras atadas por Altos Comandos ou Impérios que se confundem com destinos, são capazes de se distanciar o suficiente de suas próprias tragédias para rir na tragédia. “Nada é mais engraçado que a infelicidade”, diz Nell, personagem de Fim de Jogo de Beckett. São palavras que caberiam a muitos personagens de Coetzee. Também há um clima kafkiano nos labirintos de poder expressos por Coetzee. Entretanto, aqui não cabe toda extensão de sua obra, apenas vale lembrar que como as narrativas de Kafka, os livros de Coetzee não terminam. Por isso, para concluir esta leitura de À Espera dos Bárbaros, prefiro buscar um dos trechos do poema de Kaváfis que inspirou ou originou o livro e um ponto final que se expressa com a atualidade do discurso de nosso magistrado: “Por que não vêm os dignos oradores derramar o seu verbo como sempre? É que os bárbaros chegam hoje e aborrecem arengas, eloquências. Por que subitamente esta inquietude? (Que seriedade nas fisionomias!) Por que tão rápido as ruas se esvaziam e todos voltam para casa preocupados? Porque é já noite, os bárbaros não vêm e gente recém-chegada das fronteiras diz que não há mais bárbaros. Sem bárbaros o que será de nós? Ah! eles eram uma solução.” Vejamos como as palavras do magistrado caberiam tanto no poema de Kaváfis quanto como comentário sobre muitos acontecimentos atuais - da violência das fronteiras entre favelas e condomínios aos 3.000 quilômetros de muros que separam México e Estados Unidos, do tráfico humano no Mar Mediterrâneo aos conflitos na Faixa de Gaza, das torturas praticadas em presídios do mundo todo à discussão sobre a maioridade penal no Congresso Nacional, dos conflitos entre madeireiros e indígenas na Amazônia à luta por moradia nas grandes cidades: “Devo lhe contar o que eu , às vezes, desejo? Desejo que esses bárbaros se alcem e nos deem uma lição, para que aprendamos a respeitá-los.” Maria da Betania Galas Artista plástica, arte educadora e leitora de J. M. Coetzee

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

História do cabelo

História do cabelo narra a aventura de um homem obcecado por cabelo. Um personagem que vaga por Buenos Aires entrando e saindo de salões, condenado a pensar no cabelo, se deve cortar muito, pouco, deixar crescer, não cortar mais, raspar a cabeça para sempre. Em busca do corte perfeito, e em meio a uma infinidade de reflexões sobre o cabelo (cortes de cabelo, cabelereiros, salões, xampus, produtos de cabelo, estilos, o cabelo como o símbolo social, instrumento político e de identidade), o protagonista se vê envolvido numa trama que remonta a um dos períodos mais sombrios da vida social e política argentina. E é justamente através do cabelo que a história, que se inicia como a saga muito pessoal de um fetiche, se cruza com a luta armada e os anos de chumbo. História do cabelo, segunda parte de uma trilogia sobre os anos 70 iniciada com História do pranto, é o terceiro livro de Alan Pauls editado pela Cosac Naify. Além dos dois volumes da trilogia, a editora publicou o elogiado O passado, que teve mais de dez mil cópias vendidas e virou filme estrelado por Gael García Bernal e dirigido por Hector Babenco.

ALAN PAULS

  • Alan Pauls
Nascido em 1959, na capital da Argentina, Alan Pauls foi professor de Teoria Literária na Universidade de Buenos Aires (UBA), fundador da revista Lecturas Críticas, subeditor do suplemento dominical de Página/12e chefe de redação da revista Página/30, além de roteirista e crítico de cinema. Atualmente, ele escreve com o cineasta Hugo Santiago o roteiro de Buenos Aires no existe, filme sobre a passagem de Duchamp por Buenos Aires em 1918. Antes de O passado (Cosac Naify, 2007) - obra pela qual ganhou em 2003 o prestigioso Prêmio Herralde para livros de ficção em língua espanhola - publicou os romances El pudor del pornógrafo (1984), El coloquio (1990) e Wasabi (1994), este último lançado no Brasil pela editora Iluminuras. Escreveu ainda ensaios sobre Manuel Puig ,La traición de Rita Hayworth (1988), Jorge Luis Borges, El factor Borges (2000), e Lino Palacio, La infancia de la risa (1994), entre outros.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Ilusões perdidas

O jovem poeta Lucien Chardon decide deixar o interior da França e viver em Paris para tentar se realizar profissionalmente: ele ambiciona se tornar escritor. Com a ilusão de conseguir viver dessa atividade, instala-se na capital com dois originais prontos debaixo do braço: um livro de poemas e um romance histórico.
Lucien consegue emprego na imprensa diária e descobre que o compromisso com a ética e a verdade não é o forte dos jornalistas. Na França de 1820, a corrupção, o suborno, as trapaças políticas e as artimanhas jurídicas fazem parte da profissão.
Publicado em 1843, o romance é uma das obras-primas da literatura universal. Além de um encarte de apoio pedagógico, a edição traz um apêndice com informações sobre o contexto histórico em que a obra foi escrita, sobre a escola literária a que pertence e sobre a vida do autor.


Honoré de Balzac- Nasceu em Tours, França, em 1799, filho de um funcionário público. Passou quase seis anos interno em um colégio de Vendôme, depois se fixou em Paris, onde exerceu a função de estagiário em um escritório de advocacia. Entre 1820 e 1824, adotando diversos pseudônimos, escreveu alguns romances e a seguir tentou a sorte na atividade de editor, impressor e tipógrafo. Aos trinta anos, muito endividado, retomou a literatura com grande empenho e publicou o primeiro romance assinado com seu próprio nome. Nos vinte anos seguintes, escreveu cerca de noventa romances e contos, que receberam o nome abrangente de A comédia humana. Balzac faleceu em 1850, poucos meses depois de se casar com Evelina Hanska, a condessa polonesa com que manteve relações durante dezoito anos.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Pastoral americana

No estilo impetuoso e desbocado de Philip Roth, Pastoral americana narra os esforços de Seymour Levov para manter de pé um paraíso feito de enganos. Filho de imigrantes judeus que deram duro para subir na vida, Seymour tenta em vão comunicar um legado moral à terceira geração da família Levov. Esmagado entre duas épocas que não se entendem e desejam destruir-se mutuamente, Seymour se apega até o fim a crenças que se mostram cada vez mais irreais. A força de sua obstinação em defesa de uma causa perdida lhe confere um caráter ao mesmo tempo de heroísmo e desatino.
Para contar a história, Philip Roth ressuscita seu famoso alter ego, o romancista Nathan Zuckerman, herói e narrador dos romances Casei com um comunista e A marca humana. Na voz de Zuckerman, Seymour Levov assume a dimensão patética de um Adão obediente que um dia, sem entender por que, se vê expulso do paraíso.

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sábado, 26 de abril de 2014

Discussão sobre MADAME BOVARY: dia 8/5


Não deixe de participar!







Verónica Galindez-Jorge fala sobre Madame Bovary

https://www.youtube.com/watch?v=NC3_e-Acvpk

Flaubert por Baudelaire

A apresentação de Madame Bovary (Penguin Companhia), escrita por Charles Baudelaire, é matadora. Não deixem de ler.



"Em suma, esta mulher é realmente grande, ela é sobretudo digna de se lamentar, e apesar da dureza sistemática do autor, que fez todos os esforços para estar ausente de sua obra e para representar a função de manipulador de marionetes, todas as mulheres 'intelectuais' lhe serão reconhecidas por ele ter elevado a fêmea a uma tão alta potência, tão longe do animal puro e tão perto do homem ideal, e por tê-la feito participar desse duplo caráter de cálculo e de sonho que constitui o ser perfeito."

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O JOGO DA AMARELINHA

Em O Jogo da Amarelinha (Rayuela), romance do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), o leitor pula do jeito que quiser. Como um labirinto que avança e retrocede brincando com quem lê, a obra pode ser lida tanto de forma fluida, clássica, em capítulos (do 1 ao 56), compreendendo de modo claro a história de um triângulo amoroso, como também, a partir do capítulo 73, seguindo a ordem indicada pelo autor, como um mapa de leitura, com mil encadeamentos possíveis, incluindo capítulos antes ironicamente denominados "dispensáveis".

Nesse segundo modo de pular a amarelinha, o curso principal da narrativa oferece ramificações insondáveis, que partem de um comentário sobre o personagem para desaguar em uma reminiscência surreal - citações, cartas, breves episódios, textos que debatem a literatura atual, artigos sobre os personagens, desvarios, tudo vale para reforçar o caráter ambíguo e irônico da história.

Intelectual no desterro em Paris, longe de sua Argentina querida, o protagonista Horacio busca um ponto firme para seu mundo em pedaços. Tentará com os companheiros de exílio, os membros do Clube da Serpente, onde discutirá arte, filosofia e política, ao som do jazz, nos cineclubes e na ladainha existencialista.

Cortázar o faz por meio de uma geografia de alegorias. Assim esquadrinha a Paris de "Rayuela", surrealista e cheia de possibilidades - uma ponte, uma porta, eis aberto um mundo de sonhos. As pontes surgem, logo, de chofre, na apresentação direta do narrador, em primeira pessoa, no episódio que abre o romance com a busca desenfreada de Horacio por Maga.

Maga é Lucía, que Horacio encontra para novamente perder, num jogo de esconde-esconde que não termina ao final do livro. Obra aberta, O Jogo da Amarelinha não se encerra com o melancólico e necessário fracasso do protagonista, mas se abre para novos lances de dados que reordenem a arte e a sua contraparte combalida, a vida.

Na sua obra mais conhecida, Cortázar explorou os limites do conceito de realidade, construindo um gênero todo pessoal, expresso na "Teoria do Túnel" - texto em que defendia a coadunação de uma poética decorrente do surrealismo com a filosofia existencialista. Tal projeto, já posto em prática com Divertimento (1949), se realizaria por completo em O Jogo da Amarelinha, de 1963.

Estão no romance o questionamento existencial, a naturalização do imponderável e do lúdico como verdade, que se entregam no título e se explicam ao longo da narrativa, composta de fragmentos intercambiáveis.

Talvez tenha sido o próprio Cortázar quem definiu melhor o inconformismo que o levaria, na arte, a forçar as barreiras formais. "Desde pequeno, minha relação com as palavras, com a escritura, não se diferencia de minha relação com o mundo em geral. Eu pareço ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas."

(disponível em http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/jogo-amarelinha-643717.shtml, acesso em 30/1/14)

domingo, 8 de dezembro de 2013

VOZES ANOITECIDAS


Publicado pela primeira vez em 1986, Vozes anoitecidas projetou o escritor moçambicano Mia Couto para o mundo. Conhecido até então por seu trabalho como jornalista e poeta, o autor - hoje tido como um dos mais influentes escritores da língua portuguesa - lançou aqui as bases daquela que viria a ser uma das principais características de sua obra ficcional: a reconstrução de laços entre registro oral e escrito.
Em doze pequenos contos, um rol de personagens esfarrapados e alheios ao palco principal dos acontecimentos narra, de seu ponto de vista marginal, histórias que flertam com o mágico e com o absurdo sem, no entanto, desviarem-se completamente do plano factual.
Em “As baleias de Quissico”, Jossias aguarda a chegada de um animal marinho de cuja boca, acredita, brotará “amendoim, carne, azeite de oliva e bacalhau”. Mas como saber se o animal existe, se ele jamais viu uma baleia? O enorme monstro que aporta sem ser visto pode ser tanto o misterioso “peixe grande” como um submarino carregado de armamentos ilegais. Jossias prefere acreditar no sonho e, como ele, outros personagens de Vozes anoitecidas encontram mais razão na fantasia que na lógica da guerra e da privação.
Ao promover uma espécie de vertigem, sob efeito da qual não se pode afirmar se uma narrativa é absurda ou se absurda é a realidade de que ela trata, o autor apresenta a perplexidade como ponto de partida para o fazer literário.

(disponível em: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13419, acesso em 8/12/13)